Conversei com ele. Conheça essa figura exemplar, Rogério Chaves, militante político desde os 12 anos de idade. Um garoto que nos anos 70 pertencia a uma família de trabalhadores da periferia de São Paulo. Foi editor de várias revistas e jornais de esquerda, militante do PT desde os 17 anos. Formado em Ciências Sociais pela PUC depois de estudar sempre em escolas públicas. Pai de quatro filhos e dono de um conhecimento invejável sobre os bastidores da história política atual do Brasil. Chegou á China e representa o que o PT tem de melhor em suas fileiras, o idealismo puro e a determinação de melhorar nosso País. Rogério Chaves conta para nós como foi essa ascensão impar. :
Rogério Chaves: Passei minha infância no extremo da zona Sul paulistana, entre o Capão Redondo e o Jardim Ângela. Nasci em 1971. Na época, bairros dormitórios com baixíssima infra-estrutura do Estado e conhecidos pelos altos índices de violência. De lá nasceram -- como dizia o professor e geógrafo Milton Santos -- lutas filhas da necessidade. Como faltava de tudo, mães se reuniam para pedir creches e postos de saúde, homens e mulheres cobravam saneamento e transporte e assim nós testemunhamos o surgimento de lideranças feito Santos Dias, militante da Pastoral Operária assassinado pela ditadura civil-militar durante greve na sua empresa, Silvânia, dia 30 de outubro de 1979. Lembro-me bem do espaço da igreja católica e da sede da associação de moradores como locais de muitas reuniões populares. Nelas, Irma Passoni (PT), Aurélio Peres (PCdoB) e outros se destacavam.Meu pai era motorista de uma empresa que fretava ônibus para a Caterpilar, uma das maiores indústrias de Santo Amaro, com milhares de operários. Cumpria três turnos, obedecendo horários da metalúrgica. Desse modo conhecia um pouco da realidade destes trabalhadores também, moradores do Capão Redondo, Campo Limpo, Jardim Ipê, Jd. Rosana, Jd. Pirajussara, Jd. Mitsutani, Jd. Taboão. Algumas vezes, quando não tinha aula, seguia com meu pai no roteiro da tarde. Lembro-me que no primeiro roteiro meu velho fazia a linha do Largo da Concórdia, no Brás, início da zona Leste da cidade. Minha mãe, combativa, cuidava da casa, dos filhos seus e dos filhos pequenos de vizinhos. Como complemento de renda, ela fazia unhas de mulheres da vizinhança, vendíamos (nisso eu e minha irmã ajudávamos) geladinhos -- o que em alguns lugares também é conhecido como sacolé de frutas. Era difícil, mas a gente se virava bem. Morávamos a poucos metros da favela do Jardim Vaz de Lima. Muitos amigos meus eram dali. Estudávamos numa escola estadual, a João Sussumu Hirata, primeiro um barracão de madeira, depois reconstruída em alvenaria. Da escola me lembro da austeridade de alguns bons professores, do pátio grande, da merenda legal. Fiz grandes amigos à época, Celso Reis e seus irmãos, Américo Batista, Alfredo, Zirleide e outros. Aos 12, 13 anos já era militante da Pastoral da Juventude, na comunidade Santo Dias, associada à Paróquia da Vila Remo (referência da luta de Santo Dias, de onde surgiu um intenso movimento que depois gerou o panelaço na Sé, ainda no final dos anos 1970). Recebíamos, naquela época, colaboração de seminaristas do Seminário do Verbo Divino, com pessoal bastante politizado e atuante. Comecei a participar dos encontros no Seminário e fui ficando. Tínhamos casas na zona Sul (Pq Independência, Vila Prel, Jardim Rosana, Parque Fernanda) com muitos jovens de vários lugares do Brasil. Era a força das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que nos trouxe Leonardo e Clodovis Boff, a Teologia da Libertação, e a ação de Dom Paulo Evaristo Arns em defesa dos direitos humanos, entre outros.
Fui liderança da Pastoral da Juventude e, posteriormente, da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), em seus primeiros ensaios de mobilização na zona Sul. Tínhamos Dom Fernando como bispo da região do Campo Limpo, depois defenestrado para o interior à medida que o Vaticano tirou poderes de Dom Paulo Evaristo Arns e dividiu as arquidioceses em quadro dioceses menores, deslocando os seus bispos combativos e os substituindo por conservadores, atrasados, reacionários. No Campo Limpo destruiu-se todo o nosso trabalho, da PJ, da Pastoral do Menor (era assim que a gente chamava ainda), da Pastoral do Negro, da Pastoral Operária. Abriu-se caminho para a entrada de padres e seminaristas nada comprometidos com a luta popular. Por isso, mais tarde, nos anos 90, criou-se ambiente para o surgimento de perfis feito Padre Marcelo Rossi e congêneres.
Em 1986, ainda ligado ao seminário, cursei meu segundo grau numa escola bem distante de casa,
Em 1989 participamos ativamente da primeira campanha eleitoral para presidente da República pós-golpe. Nesse momento rompi definitivamente com o seminário, estava envolvido completamente com o partido. No primeiro semestre, ainda com 17 anos, fiz intensa campanha pelo voto aos 16 anos -- havia uma camiseta bonita, simples, com o mote. Em virtude de meu trabalho no Boletim Nacional, fiz parte da equipe de distribuição de materiais e publicações da Campanha Lula daquele ano. A grana era pouca e as tiragens idem, mal dava para cobrir o País com material. Era a primeira campanha nacional do partido, muita coisa foi aprendida na raça, na tentativa e no erro. Percebemos, por exemplo, que as transportadoras e companhias aéreas desviavam ou atrasavam demais as remessas de materiais de campanha. Tínhamos que fazer uma declaração simples, no papel timbrado do partido, dizendo que aqueles materiais não tinham valor comercial, isso causava transtorno para calcular seguro, por exemplo, sendo o motivo dos descaminhos. Então Milton Pomar, meu coordenador naquele momento, propôs que a nossa equipe de cinco pessoas levassem os materiais ao vivo, em roteiros impressionantes, feitos de ônibus convencional. As caixas seguiam no porta-malas dos ônibus e desembarcados em cada cidade onde o PT tinha diretório. Fizemos uma lista com as 200 principais cidades do país e fomos à luta. Eu mesmo cobri cidades do interior do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. E praticamente todas as capitais, exceto as do Acre, Roraima e Rondônia. Foi uma belíssima campanha, inesquecível. Em 1990 eu trabalhava numa editora na Barra Funda, fui estimulado a fazer um cursinho pré-vestibular para disputar uma vaga na Universidade. Estudei na escola pública durante toda a vida e meu segundo grau foi tumultuado, (1985-1987), sob governo Sarney e Montoro, com inflação alta, desemprego, greves de professores, saques de supermercados etc. Morando ainda na zona Sul, fazia cursinho na Liberdade e voltava para dormir no escritório durante a semana. Foi um tempo bem solitário, mas importante para testar meus limites. Prestei vestibular para Ciências Sociais em somente duas instituições, passei na PUC e procurei uma pensão perto da faculdade, ainda tentando economizar tempo de deslocamento numa megalópole como São Paulo.
Trabalhei nessa época no Instituto Cajamar, lugar importantíssimo para a formação de centenas ou milhares de lideranças políticas, sindicais e de movimentos populares. Ficava na via Anhanguera, KM 46,5, no município de Cajamar. Fui responsável pelas duas livrarias do Inca (como o chamávamos) e montamos uma equipe bem bacana. Em 1992 participamos da “Eco-92”, evento que esse ano terá sua evolução na ”Rio+20”, na cidade do Rio.
Com a desarticulação do Inca, trabalhei na Associação Brasileira de Vídeo Popular (ABVP), um projeto muito legal, sediado na Bela Vista. Ali tínhamos um acervo impressionante de vídeos produzidos por lideranças, produtoras comprometidas com a luta popular e a formação política. Depois colaborei com sindicatos filiados à CUT, na distribuição de materiais, como o Sintaema, ligado aos trabalhadores da Sabesp e grande colaborador da Federação dos Urbanitários. Colaborei durante dois anos com a revista Teoria e Debate (1994-1995) e distribuímos o Programa de Governo do Lula, em 1994. Colaborei com o jornal “Brasil Agora”, iniciativa do partido também, este foi fechado mesmo havendo 13 mil assinantes.
Em seguida, colaborei com a revista “Brasil Socialista”, produzida por uma corrente interna do PT. Depois segui para Diadema, num projeto interessante de rádio popular. Fomos impedidos de continuar no ar devido às perseguições às rádios livres e comunitárias. A emissora tinha todos seus equipamentos comprados de forma legal, o transmissor de 50watts, cobertos por um estatuto social registrado em cartório etc. Mesmo assim, depois de intensa campanha da Abert pelo fechamento de emissoras comunitárias próximas de outras grandes no "dial" do rádio, fomos retaliados e todos os equipamentos confiscados sob ameaças nada condizentes com períodos democráticos.
Em 1997 fui convidado a participar da equipe da “Revista Sem Terra”, pelo editor e amigo Alípio Freire. Cuidava da circulação e posteriormente assumi uma espécie de secretaria de redação. Ficávamos com a equipe de comunicação do MST, que já produzia o histórico “Jornal Sem Terra”. Inserimos, na ocasião, a comunicação do Movimento na era da internet, sugerindo criação de domínio próprio, endereços eletrônicos (e-mails). Acompanhei as primeiras iniciativas para a criação da “Escola Nacional Florestan Fernandes”, em Guararema. Concomitante a isso, colaborava também com a “Revista Princípios” e na Editora Anita Garibaldi, do PCdoB.
Em 2002 interrompi a colaboração direta a estes veículos e junto com minha companheira, batalhamos para criar uma pequena livraria e editora. Nascia nosso quarto filho e fomos alvejados pela inflação de abril de 2005, que derrubou muita gente do mercado editorial, inclusive nós. Lançamos dois livros, fizemos dezenas de eventos, atendíamos bibliotecas universitárias. Um projeto bonito, mas carente de capital e sujeito às intempéries e falta de políticas para o livro e leitura no país.
O ano de 2005 nos trouxe uma boa surpresa, fui convidado a trabalhar num intercâmbio Brasil-China. Isso resultou num trabalho fabuloso, editamos uma revista e montamos uma exposição de empresas brasileiras na China, em maio de 2006. Viajamos duas vezes para lá, conhecemos dezenas de cidades em várias províncias (o que seria equivalente aos nossos estados). Nesse período, fiz seis meses de mandarim, para conhecer melhor a cultura daquele país-continente milenar.
Em junho de 2006 vim compor a equipe da Editora da Fundação Perseu Abramo. Até 2008 coordenava o departamento comercial e desde então coordeno a área editorial.
Em 2002 interrompi a colaboração direta a estes veículos e junto com minha companheira, batalhamos para criar uma pequena livraria e editora. Nascia nosso quarto filho e fomos alvejados pela inflação de abril de 2005, que derrubou muita gente do mercado editorial, inclusive nós. Lançamos dois livros, fizemos dezenas de eventos, atendíamos bibliotecas universitárias. Um projeto bonito, mas carente de capital e sujeito às intempéries e falta de políticas para o livro e leitura no país.
O ano de 2005 nos trouxe uma boa surpresa, fui convidado a trabalhar num intercâmbio Brasil-China. Isso resultou num trabalho fabuloso, editamos uma revista e montamos uma exposição de empresas brasileiras na China, em maio de 2006. Viajamos duas vezes para lá, conhecemos dezenas de cidades em várias províncias (o que seria equivalente aos nossos estados). Nesse período, fiz seis meses de mandarim, para conhecer melhor a cultura daquele país-continente milenar.
Em junho de 2006 vim compor a equipe da Editora da Fundação Perseu Abramo. Até 2008 coordenava o departamento comercial e desde então coordeno a área editorial.
LV- O que você fazia no PT quando começou a militância?
De certo modo respondi parte da questão nas passagens acima. Eu era o responsável pela circulação do Boletim Nacional do partido, órgão mensal do diretório nacional. Enviávamos o boletim aos 300 diretórios (estaduais, municipais) e comissões provisórias país afora, mais um grupo de assinantes individuais. Esqueci de dizer que, ainda em 1986 me filiei ao PT no antigo diretório zonal do Campo Limpo. Ainda era militante de pastoral das CEBs na minha região. Atuava no grêmio estudantil, procurava conhecer mais a respeito daquele momento em que o povo clamava por participação na democracia. Lembro-me com nitidez da nossa participação distribuindo materiais em duas bancas e equipe de seis pessoas no 3o. Congresso Nacional da CUT, no Ginásio Mineirinho, em setembro de 1988. Três meses depois, em dezembro, estávamos na sede do diretório nacional quando recebemos a triste notícia do assassinato do seringueiro e sindicalista Chico Mendes, liderança do PT do Acre. Foi também nessa época em que a cidade de São Paulo surpreendeu elegendo Luiza Erundina prefeita, após Jânio Quadros. Tanto minha mãe, Maria, quanto minha irmã mais velha, a Raquel, trabalhou como voluntárias na educação popular pautada pelo mestre Paulo Freire, à frente da Secretaria.
LV- Como estava o Brasil naquela época?
Tínhamos acabado de sair de uma ditadura civil-militar de 21 anos, o clima ainda era tenso, com desconfianças de que os militares não deixariam o poder de fato. Sabia-se das ligações de José Sarney com a Arena. Ele assumiu após a morte de Tancredo Neves, eleito de forma indireta numa espécie de concentração que derrotou o movimento das Diretas Já. O PMDB havia vencido eleições anteriores em muitas cidades e estados, havia uma sede de democracia, mas a vida não estava fácil para os trabalhadores. Lembro-me muito dos conflitos gerados pelo desemprego, arrocho salarial, dívida externa, crescimento vertiginoso das cidades.
LV- Você concorda que de certa forma São Paulo foi a Capital da ditadura?
São Paulo, desde tempos imemoriais, é a capital econômica e financeira do país. Daqui partiram os tais bandeirantes, mercenários contratados para matar indígenas, roubar riquezas naturais, trucidar oponentes sob a benção dos poderes instituídos. Essa aura de "locomotiva do país" toma a cabeça das elites (aquelas que autodenominam quatrocentonas) e humilha quem não é daqui. Fizeram isso mesmo quando precisaram da mão de obra estrangeira no pós-Abolição ou já na segunda metade do século XX, quando fizeram campanhas para a vinda de homens e mulheres do Nordeste, povos que deixaram (e ainda deixam) seu suor nas empresas e casas paulistanas, serviços, metrô etc.
Exceto no período em que os paulistas foram surpreendidos pela chegada do gaúcho Getúlio Vargas, nos demais momentos históricos, São Paulo sempre esteve na direção ou na conspiração política nacional. Lembremos aqui da frase do Mário Amato, da FIESP, ao dizer que se Lula ganhasse as eleições, os empresários sairiam do Brasil, num ato mais que terrorista da direita paulista. Lembremos que também aqui foi sede da Operação Bandeirantes (Oban), espaço de terror construído pela ditadura.
LV- Em sua opinião, por que um partido tão novo conseguiu crescer tanto como o PT?
Exceto no período em que os paulistas foram surpreendidos pela chegada do gaúcho Getúlio Vargas, nos demais momentos históricos, São Paulo sempre esteve na direção ou na conspiração política nacional. Lembremos aqui da frase do Mário Amato, da FIESP, ao dizer que se Lula ganhasse as eleições, os empresários sairiam do Brasil, num ato mais que terrorista da direita paulista. Lembremos que também aqui foi sede da Operação Bandeirantes (Oban), espaço de terror construído pela ditadura.
LV- Em sua opinião, por que um partido tão novo conseguiu crescer tanto como o PT?
É, já não tão novo assim, completou 32 anos dia 10 de fevereiro passado. Mas o PT surpreendeu muito, pelo crescimento consistente desde sua fundação. Acredito que o crescimento tem relação com uma série de fatores, que interagem e se complementam. Nasceu da força de um tripé que contou com o Novo Sindicalismo (rompendo com o sindicalismo pelego), militantes das CEBs e os remanescentes da luta armada. Rompeu com a formulação do antigo Partido Comunista, centralizado em demasia, e procurou a organização popular de massas. Agradou uma parte significativa da classe média intelectualizada, como por exemplo, o companheiro Florestan Fernandes, Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda. Agradou uma parte importante da juventude engajada politicamente, com a criatividade de sua comunicação inteligente quando ia para a TV e rádio nos programas eleitorais (tanto que hoje paira a censura de não mostrar comícios ao vivo na TV, agradou parte importante também da classe artística, que lutou contra a ditadura civil-militar. Teve em seus primeiros mandatos, sucesso e apoio popular, recebendo reconhecimento e prêmios no trato da educação, saúde, moradia.
LV- Existe uma eminência parda no PT? Um maestro, alguém que orquestre estratégias?
LV- Existe uma eminência parda no PT? Um maestro, alguém que orquestre estratégias?
Não, isso não existe. E se existisse, dificilmente seria divulgado, não é! É óbvio que hoje, com a força e tamanho do PT, existem muitas lideranças em nível nacional. O PT é partido fundamental para o desenvolvimento do Nordeste, por exemplo. Hoje se sabe que já há uma saída de povos de SP e Rio retornando aos seus estados natais, pois lá o desenvolvimento alcança índices chineses.
O partido é composto por uma série de correntes internas, que debatem a conjuntura, tiram resoluções e propõem caminhos. Cada corrente tem suas eminências, que dialogam no Diretório Nacional. Há também a força dos mandatos de parlamentares e executivos (tanto que houve a polêmica, na segunda etapa, sobre a resolução que colocou limites no número de mandatos a disputar), das regiões do país. E a força da militância (a orgânica e a voluntária, que surge nos períodos eleitorais), que pressiona cobra, questiona se faz presente nos principais debates que envolvem o partido e a sociedade.
LV- O PT disputou três vezes a presidência com Lula, em sua opinião a presença de José de Alencar teve que influência na vitória tão esperada?
O partido é composto por uma série de correntes internas, que debatem a conjuntura, tiram resoluções e propõem caminhos. Cada corrente tem suas eminências, que dialogam no Diretório Nacional. Há também a força dos mandatos de parlamentares e executivos (tanto que houve a polêmica, na segunda etapa, sobre a resolução que colocou limites no número de mandatos a disputar), das regiões do país. E a força da militância (a orgânica e a voluntária, que surge nos períodos eleitorais), que pressiona cobra, questiona se faz presente nos principais debates que envolvem o partido e a sociedade.
LV- O PT disputou três vezes a presidência com Lula, em sua opinião a presença de José de Alencar teve que influência na vitória tão esperada?
Estive lá no ato que apresentou José Alencar ao PT. Preciso confessar que no início acreditei que não era um bom caminho, pois isso levaria o partido à reboque de uma aliança que nos deixaria enfraquecidos. Mas depois, durante a gestão do presidente Lula, tive que reconhecer no José Alencar um sujeito capaz de minimizar a ojeriza que setores atrasados do empresariado nacional apresentavam contra o partido. Ele reclamava dos juros altos, falava que o Brasil precisava se fortalecer no cenário nacional e internacional. Era um sujeito ligado às classes ricas do país, um liberal, mas não era entreguista. Naquele momento, em 2002, foi uma aliança que somou.
LV- Sinto a direita brasileira extremamente inconformada com a situação atual, chego a temer pela estabilidade de nossa democracia, estou exagerando?
LV- Sinto a direita brasileira extremamente inconformada com a situação atual, chego a temer pela estabilidade de nossa democracia, estou exagerando?
Creio que sim, você está exagerando. Hoje a direita está desconexa, sem liderança reconhecida. O PSDB tentou ser esse sujeito, mas não conseguiu. Deitou e rolou no aprofundamento do ciclo neoliberal iniciado por Collor de Melo, obedecendo ao que dizia os EUA, FMI e Banco Mundial. Vivemos numa sociedade com intermitente luta de classes, eles hoje estão em baixa na disputa política, com espaço reduzido na cena nacional, mas perduram com seus valores atrasados em alguns “bunkers”, feito a velha imprensa, ou PIG, como ensinou Fernando Ferro, parlamentar petista do Pernambuco. Esses valores perduram nos governos tucanos e demos de SP, por exemplo, com suas políticas privatistas, excesso na utilização de força policial para defender patrimônio das classes abastadas (feito o que ocorreu no caso Pinheirinho, em São José dos Campos). E perdura também no Poder Judiciário, um dos únicos poderes da União onde a meritocracia hermética não permite eleições diretas para seus postos e funções, por isso houve, de 2003 para cá, uma espécie de judicialização da política, com o Judiciário interferindo diretamente nos outros dois poderes.
LV- Comente o silêncio de José Serra e o que podemos esperar deste político. Parece que ele contratou uma empresa de pesquisas.
LV- Comente o silêncio de José Serra e o que podemos esperar deste político. Parece que ele contratou uma empresa de pesquisas.
José Serra já demonstrou que não respeita o eleitorado. Um fragmento de seu perfil pouco confiável está expresso no livro A Privataria Tucana (Geração Editorial, 2011), de Amaury Ribeiro Jr. Um sujeito vingativo, criador de dossiês a partir de arapongagem, apoiador dos projetos privatistas do patrimônio público e estatal. Cria relações políticas heterodoxas, feito essa com Gilberto Kassab, seu vice na chapa para prefeitura paulistana em 2005. Podemos dizer que José Serra foi o responsável pelo surgimento da direita política na cidade de São Paulo, logo após a derrota eleitoral sofrida por personangens feito Paulo Maluf, por exemplo.
Nos últimos dias, como nos informou o jornalista Renato Rovai, José Serra vem tendo contatos com Orjan Olsen, presidente da Analítica Consultoria e um dos pesquisadores preferidos do tucanato. Vem medindo seu possível alcance nas eleições de 2012. Todo político, se fica muito tempo distante de cargos públicos de prestígio, desaparece. Serra teme acabar desolado, sozinho, amaldiçoado pela desgraça de não ganhar mais nenhuma eleição.
O PSDB tem ainda forçaem São Paulo. Tem também em Minas, com a sobrevida que Aécio Neves no Senado e seu ex-vice no governo estadual de Minas. Fora isso, nada mais. Caiu Arthur Virgílio, Tasso Jereissati e outras figuras estranhas do ninho tucano. Os tucanos estão governando São Paulo há 20 anos, vão fazer de tudo para que seu projeto de poder político não perca espaço, pois se isso acontece, estão lascados em 2014. Serra quer voltar em 2014, na minha modesta opinião, acredita que voltará a compor uma oposição a presidenta Dilma Rousseff.
Voltando a sua pergunta, de José Serra podemos esperar sempre o pior para o povo de São Paulo.
LV- A militância do PT é diferente, por quê
Nos últimos dias, como nos informou o jornalista Renato Rovai, José Serra vem tendo contatos com Orjan Olsen, presidente da Analítica Consultoria e um dos pesquisadores preferidos do tucanato. Vem medindo seu possível alcance nas eleições de 2012. Todo político, se fica muito tempo distante de cargos públicos de prestígio, desaparece. Serra teme acabar desolado, sozinho, amaldiçoado pela desgraça de não ganhar mais nenhuma eleição.
O PSDB tem ainda força
Voltando a sua pergunta, de José Serra podemos esperar sempre o pior para o povo de São Paulo.
LV- A militância do PT é diferente, por quê
A militância petista é diferente, sim. Ela participa, critica e constrói. Foi a militância que maciçamente se apresentou no Processo de Eleição Direta (PED) em 2005, representada por cerca de 300 mil filiados, que fortaleceu o partido após sua mais profunda crise política desde sua fundação, construída pela direita que esperava "sangrar" Lula até o fim. O PT salvou o PT, portanto. Hoje é o partido que mais agrega simpatizantes. De 2003 para cá, cerca de um milhão de novos filiados foram aceitos.
A juventude, por exemplo, tem força e fez diferença nas resoluções da segunda etapa do 4o. Congresso, em 2011, quando determinou cota de participação de jovens nas direções partidárias. Mesmo com toda a velha imprensa contra, procurando misturar o entendimento das pessoas em relação ao combate à corrupção (foi no governo do PT onde a Polícia Federal mais combateu ilícitos na administração pública). O fato é que vivemos numa sociedade de classes e o PT ainda é identificado como os trabalhadores.
O fato de se ter profissionalizado as campanhas eleitorais (essas disputas que a cada dois anos mobilizam a todos e todas) não esmorece o militante petista de verdade. Existem milhares de militantes que fazem seu trabalho político a partir do chão em que estão pisando. Na véspera dos grandes embates, eles tomam para si o espírito combativo e vestem aquela camiseta antiga, colocam o bottom com a estrelinha vermelha, retiram a bandeira vermelha e colocam em suas janelas. Vida longa ao PT e ao povo brasileiro.
Por: Airton Baptista.
Um comentário:
Sou grata pela oportunidade que está sendo dada a um dos muitos coloboradores,militantes,ideologis-tas,com um depoimento de uma trajetoria de empenho e dedicaçao, provavelmente parecida com a de muitos outros anônimos que temos em nosso País. Que bom que alguns não desistem.
Eles ajudam a construir uma Historia...
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