Repentinamente, como se etérea fosse a verdade, pinçam das catacumbas do mais profundo umbral, a celebração da morte. Velhos homens carcomidos pela pena maior que é a de ver seus pecados serem expostos nas praças da vida, saem em defesa do extermínio de pessoas e de idéias. Hoje, em fase de pré morte anunciada, querem comemorar o que para eles significou uma revolução, mas para todos viventes e calados pelo cajado não passou de um golpe contra a vida de uma nação, um retrocesso.
Não bastassem as pessoas infladas pela liberdade inerente aos humanos, conforme determina a mais avançada das mais avançadas das filosofias, nada os parou. Seus tanques de guerra invadiram as praças outrora do povo, assim como o céu era do condor. A morte vinha na cor verde oliva que tanto honrávamos sem determinarmos um dia sequer que ela nos honrasse e nos defendessem como determinavam seus soldos, pagos pelas nossas alegrias e orgulho de sermos brasileiros e miscigenados, sermos o celeiro das esperanças inovadoras para um mundo, a amalgama do mundo, segundo Jorge Mautner.
E homens de bigodes e cabelos raspados trouxeram a tristeza, a desumanidade. Trouxeram em seus carros de combate o vate silente que acompanhava as canções e seus cantores, e seus poetas e suas notícias, e seus inconformados.
E nosso humor se transformou.
Eles querem comemorar a destruição assim como satã celebra o caos. São herdeiros dele, para ele eles se encaminharão, para se juntarem aos que lá já estão. Não se estagna uma nação sem pagar o ônus da evolução espiritual contida nos planos dos seres superiores, da nata da vida, do pensador amorável que tudo planeja com esmero e requintes.
Eles querem comemorar a tortura como se fossem mandados de Hades diretamente para Copacabana.
Calaram Calabar e espalharam em cada bar um ouvinte, um Judas mal contado, feriram o cerne maternal de uma juventude eloqüente e criativa, transformando-os em zumbis sem juízo de causas, anômalos e anônimos. E eles querem comemorar o desprestígio, sim porque nenhum ser humano evoluído os prestigia. Dentro de suas fraudas geriátricas chegam sem sorrir ao Clube Militar, deixando no local a magnetização de seus ódios, emporcalhando o ambiente com suas auras marrons.
Felizmente não durarão mais que cinco ou seis anos. Serão substituídos por outros que vibro sejam mais envolvidos com a pátria nossa e não com a pátria central do capitalismo espúrio, a que se considera dona e mantenedora do mundo, aquela que apóia Israel, assim como o fez Caifás.
Erram todos que apóiam a intolerância e contra outros lançam seus dólares em forma de cédulas, armas e imprensa dependente.
Mas tentaram comemorar a desrazão e encontraram à suas portas uma pequena legião de manifestantes cariocas que jamais saírão no Jornal Nacional, mas a quem eu presto meus agradecimentos e meu pequeno reconhecimento, pequeno visto que nada somos quando somos sós. Mas somos mais que todos eles juntos a comemorarem o nada. Somos livres como jamais fomos. Somos mais felizes, tanto que jamais fomos, e mais ricos, e mais respeitados.
Somos o único País do mundo que poderá ser verdadeiramente exemplo de uma sociedade ideal para os demais. Somos o insumo de três raças tristes que irremediavelmente misturadas perceberam que a alegria é o que nos dará alma de pátria e, por conseguinte, intocáveis. Aprendemos a votar com a lógica da sociabilidade, com a lógica da competência. Estamos julgando melhor, mesmo tendo ainda um código de leis datado de 1940. Quando todos sentiam frio, colocamos a cama na varanda. Salve Rulzito.
Eles queriam comemorar 1964, nós apenas lembramos a data com desejo de jamais esquecê-la e mostrarmos aos senhores do apocalipse que não toleraremos desmandos, algemas, censura, torturas e mortes nunca mais.
Eles queriam comemorar e ouviram o clamor de quem realmente sabe o que é uma comemoração. Comemoramos a senilidade destes senhores e a certeza absoluta que eles fizeram a pior festa já vista naquele clube. Um verdadeiro vexame diante do mundo civilizado. Torço para que o mais rápido possível sejam limpos o piso e as paredes do local para retirarem dali o ectoplasma da seiva demoníaca que esses senhores arrotam e exalam quando respiram.
Que seus ternos de festa sejam suas mortalhas brevemente, e que suas famílias possam viver sem esses algozes e assassinos em casa, sem a vergonha se serem parentes de carrascos e enfim possam caminhar para evolução sem o vampirismo implícito nesses obsessores ainda vivos e de fardas, reencarnações de anjos subidos do plasma mais cinza do mais telúrico dos magmas, seres expulsos do mais decadente dos mundos da guerra, guerra que não combina com gente. Guerra que não combina com progresso, com evolução, com felicidade, com perdão, fraternidade.
A defesa nunca será um ataque. O defensor será julgado como herói, o atacante como assassino.
Sejamos defensores da liberdade, a paga será a imortalidade nos corações dos arquitetos do universo.
Quando um de nós dormir, outro fique de plantão, preservando a liberdade.
Não poderemos nunca mais admitir um Estado militarizado, tão pouco teocrático como desejam alguns doentes mentais.
Na liberdade está encravada a abertura de mentes. Não há liberdade na regra. A liberdade está na consciência, e esta vem da alma limpa.
Aquele que opta por si próprio não vale o todo, e dele não farão parte. Só nos valorizamos individualmente quando optamos por todos.
Ditadura, nunca mais.
Por: Airton Baptista.


Nenhum comentário:
Postar um comentário