20 de março de 2012

Ainda resta um pouco de dignidade.

Há ainda uma sombra de descaso em cada um de nós. E não basta querermos um País melhor e cobrar isso dos políticos somente. Vimos à reportagem do Fantástico no domingo, onde empresários ofereciam propinas a um pseudo diretor do hospital público. Foi de indignar a todos. Mas me pergunto o que havia de novo na denúncia além de se tornar uma matéria em um programa de audiência comprovada? Nada de novo havia além do fato se tornar público.
Todos nós sabemos como agem os empresários que prestam serviços aos órgãos públicos. As empreiteiras, os fornecedores de alimentação para as cadeias, as empresas de limpeza urbana, todos tratam de negócios como foi tratado na matéria. Políticos enriquecem como se fossem honestos, o pessoal do segundo escalam fazem parte do “staff” de políticos e são nomeados depois de disputas incessantes entre seus padrinhos. Para nada terem de volta?
Chega a ser hipócrita acharmos que não fazemos parte desta cultura da corrupção. Os poucos que tentam se livrar dela são fritados dia mais dia, caso do diretor do hospital que concordou com a matéria do Fantástico e disse que quem rouba da saúde deveria ter o dobro da pena, pois o produto do rouba mata. Esse homem não terá futuro no serviço público.
É de dar asco ver um empresário dizer que diz para os filhos para protegerem e serem protegidos pelo corrupto como se fosse ético e moral este tipo de atitude. Ético e moral entre bandidos, isso sim.
Estamos falando de diretores de compra de um só hospital. Imaginemos o que acontece nos demais. Aquelas reuniões de licitação toda armada por outros empresários que só aguardam a vez para terem seu retorno.
Como que deveria agir a justiça? A justiça vai investigar através da Polícia Federal. Mas investigar o quê? Não ficou claro? Esses bandidos ainda respondem em liberdade? E serão presos?
Não serão. Não existe um só corrupto preso no Brasil. Todos respondem a processo em liberdade. Devido a lentidão do processo esqueceremos o caso.
E elegemos mais uma vez o Sr. Paulo Maluf por exemplo. E votaremos em José Serra que fugiu com dinheiro da UNE quando ainda era estudante e tem em sua filha Verônica um exemplo de enriquecimento ilícito comprovado, mas nada acontecerá a ele, nem a ela, e ainda corremos o risco de o vermos novamente eleito. Isso porque a grande parte da população se vê neste tipo de personagem, aquele esperto que se dá bem. Queremos ser ele. É um espelho de nossa vontade. Invejamos essas fortunas rápidas.
Não é de hoje que somos culturamente corruptos. Isso acontece desde o dia que D. Pedro II foi deposto e começamos com nossa república de caudilhos.
Além disto, temos a religião. Nunca vimos tanta picaretagem como agora nas igrejas evangélicas. E o que pregam essas igrejas? Pregam a fartura, a fortuna como recompensa de vida. Deus dará dinheiro a todos. A abundância será o resultado de nossas orações. Basta dizimar.
O dizimo do pastor é a corrupção de Deus. O povo sabe que deve pagar pelo menos 10%. Seja lá para quem for. Está intrínseco em nossa cultura, é inerente ao negócio, falta só regulamentar. Não importa se é para o pastor ou para o diretor da estatal.
Enquanto calarmos, enquanto não imaginarmos que esse dinheiro todo poderia estar circulando legalmente, enquanto corrompemos Deus ao dizimar, enquanto corrompermos políticos, nada mudará. Nada.
Precisamos entender que o fato da corrupção é nosso, não é do outro. Não é um mal dos outros, é um mal nosso e deve ser curado na raiz.
Criamos tanta coisa errada que passamos a justificar como sendo corretas. Pense nisso na próxima vez que você for renovar sua carteira de motorista, que for parar na vaga de deficiente, que seu barulho não incomoda o vizinho, que estacionar em fila dupla na rua em frente à escola de seu filho é rapidinho, e principalmente, pense nisso quando for votar. E não acredite que a corrupção é só coisa do Brasil, ela é mundial, e joga lama de desigualdade por onde passa.
Precisamos rever nosso conceito bem estar. Bem estar é estar bem com todos estando bem, senão o ladrão vem.

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